Thursday, July 19, 2012

Thursday, March 29, 2012

Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

(Millôr Fernandes)

Wednesday, April 27, 2011

A Remark You Made.



It was one of those days when it's a minute away from snowing
and there's this electricity in the air,
you can almost hear it.
And this bag was just dancing with me.
Like a little kid begging me to play with it.
For fifteen minutes.

And that's the day I realized that there was this entire life behind things,
And this incredibly benevolent force,
that wanted me to know that there is no reason to be afraid,
ever.

Video's a poor excuse, I know,
but it helps me remember.
I need to remember.

Sometimes there's so much beauty in the world
I feel like I can't take it,
And my heart is just going to cave in.

Friday, April 08, 2011

Thursday, April 07, 2011

Ninguém é insubstituível.

Quando o homem indispensável franze a testa

Oscilam dois impérios mundiais.

Quando o homem indispensável morre

O mundo olha em volta como uma mãe que não tem leite para o filho

Se o homem indispensável regressasse uma semana depois da sua morte

Em todo o império não se acharia já para ele nem um lugar de porteiro.

(Bertolt Brecht)

Friday, January 07, 2011

Wednesday, December 22, 2010

Thee.

O Telegraph [de 2 de/01/2010] gritava: Traditional English spellings could be killed by Internet, says language expert. Só porque David Crystal disse que, daqui a umas décadas, o conjunto de convenções da actual ortografia inglesa será substituído por um novo conjunto de convenções, com origem na Internet, nos SMS, etc.

Há para chorar e para agradecer nos dicionários SMS e Net de língua inglesa. A expressão da indiferença melhorou. Começou antes da Internet com o perene whatever. Na Net diz-se meh e significa «isso não me interessa». É um encolher de ombros.

Até no OK houve progressos. Digitar só K mostra que é um acordo mole, tipo «se-tu-o-dizes». É um whatever de uma letra só e reproduz o OK pouco convencido de quem diz só kay em vez de oh kay. É bonito porque a letra K pronuncia-se kay. O OK fica para quem está mesmo de acordo. E, quando alguém está a insistir connosco, há o KK, que corresponde ao Okay, Okay! É, em duas letras, o «pronto, pronto; cala-te lá com isso!»

Há acrónimos bons, como SSDD (same stuff, different day), LIC (like I care) e FICCL (frankly, I couldn"t care less).

O contrário da indiferença é o amor. Gosto de 143 e de 831. 143 dito em voz alta é I for three. Tirando o último R, dá I for thee. Thee é a forma antiga e poética de you. Logo, 143 quer dizer I love you. 831 é melhor ainda. Significa: 8 caracteres, 3 palavras, 1 significado. Ou seja, a frase I love you.

(Miguel Esteves Cardoso)

Saturday, October 09, 2010

Harvey

This is the big exit to claim my good fortune.
It's through a place called home
where there is one line drawn
by the whores hustle and the hustlers whore.
This mess we're in was about you.
Said something like kamikaze or maybe this is love.
Keep seeing horses in my dreams
but I know that we float on this wicked tongue of mine.

Tuesday, September 21, 2010

Meados de Setembro

Um incêndio no mar
que transborda a terra,
que translada o fumo,
e morre, como os Távoras,
no Pátio dos Bichos.

Friday, May 28, 2010

Disse que não tinha o melhor dos corpos para bailarina?



Não tinha tinha pernas altas como uma bailarina clássica deve ter.
As coxinhas das portuguesas... Mas na contemporânea isso já não faz sentido. Só devia ter cuidado e não engordar.

[Recebe um SMS. "Deixe-me só ver." Faz um silêncio, ri-se sozinha e diz: "Estou apaixonada, desculpe lá. Ai, o calor. Faz um mês no dia 29.
Foi no dia mundial da dança."]

Tuesday, March 16, 2010

Baby

Devendra Banhart ~ Baby from Ron Winter on Vimeo.



Baby, I finally know what I'm going after.
I'm learning to let in all the laughter.
(Holy moly) You're so funny, you crack me up, you crack me up.

Look out for dreams that keep returnin',
'Cause magic ain't no hand me down yearnin'.
You gotta feel it, gotta want it,
The way I want you babe.

Travelin' by choo choo train,
We know where, we just don't know when,
Like some everlasting onion pulled by love.

Never heard a better bad joke said out loud,
You flip flop, and I wild out.
(Can you believe it?) I can't believe it, but it's true.
You're giving eighty billion years of giggling,
A whole new world to live in,
But this one's real, this one's real, this one's real.

Like a bow tied kangaroo,
You be one and I'll be one too.
Play it goofy or play it cool,
We're on our minds.

Everything that happened,
You know it don't mean a thing to us,
'Cause so much is gonna happen because...

You showed me a sunset overflowin'.
Who cares where it's goin', as long as you're next to me.

(Devendra Banhart)

Friday, February 26, 2010

Belas são as marcas dos teus dedos

a autenticarem crimes amorosos.

CINEMA
Requiem for a Dream, Darren Aronofsky, 2000
Hable con Ella, Pedro Almodóvar, 2002
Irréversible, Gaspar Noé, 2002
Big Fish, Tim Burton, 2003
Eternal Sunshine of the Spotless Mind, Michel Gondry, 2004
El Laberinto del Fauno, Guillermo del Toro, 2006
300, Zack Snyder, 2006
Death Proof, Quentin Tarantino, 2007
The Bucket List, Rob Reiner, 2007
District 9, Neill Blomkamp, 2009

MúSICA
PJ Harvey, Stories from the City, Stories from the Sea, 2000
India Arie, Acoustic Soul, 2001
Rufus Wainwright, Poses, 2001
Ojos de Brujo, Barí, 2002
Maria Rita, Maria Rita, 2003
Lhasa De Sela, The Living Road, 2003
Diane Cluck, Oh Vanille, 2003
Amy Winehouse, Frank, 2003
Marcelo D2, Acústico MTV, 2004
Andrew Bird, The Mysterious Production Of Eggs, 2005
Camille, Le Fil, 2005
Strapping Young Lad, Alien, 2005
Beyoncé, B'Day, 2006
Buraka Som Sistema, From Buraka to the World, 2006
Tinariwen, Aman Iman: Water Is Life, 2007
MIA, Kala, 2007
The Kills, Midnight Boom, 2008
Mother Mother, O My Heart, 2008
Bon Iver, For Emma, Forever Ago, 2008
Macacos do Chinês, Mixtape do C$%&, 2009

CONCERTOS
Grátis, Ricardo Pais, TNSJ, Porto, 5 de Maio de 2003
Beck, Sudoeste, Zambujeira do Mar, 10 de Agosto de 2003
P.J. Harvey, Paredes de Coura, Praia Fluvial do Tabuão, 19 de Agosto de 2003
Yeah Yeah Yeahs, Paredes de Coura, Praia Fluvial do Tabuão, 19 de Agosto de 2003
Ojos de Brujo, Teatro Aveirense, Aveiro, 22 de Novembro de 2003
Lhasa de Sela, Jardins do Palácio de Cristal, Porto, 10 de Julho de 2004
Mão Morta, Colinas Bar, Branca, 12 de Novembro de 2004
Kimmo Pohjonen, TAGV, Coimbra, 1 de Dezembro de 2004
Keith Jarrett Trio (J. DeJohnette + G. Peacock), CCB, Lisboa, 12 de Novembro de 2006
Nouvelle Vague, Le Grand Rex, Paris, 25 de Abril de 2007
Andrew Bird, Theatro Circo de Braga, Braga, 1 de Junho de 2007
Kings of Convenience, Casa da Música, Porto, 22 de Julho de 2007
Estilhaços (A. L. Canibal + A. Rafael), Teatro da Vilarinha, Porto, 19 de Janeiro de 2008
Portishead, Coliseu do Porto, Porto, 26 de Março de 2008
The Kills, Casa da Música, Porto, 12 de Abril de 2008
Rufus Wainwright, Casa das Artes, Famalicão, 28 de Junho de 2008
Madonna, Parque da Bela Vista, Lisboa, 14 de Setembro de 2008
dEUS, Teatro Sá da Bandeira, Porto, 21 de Outubro de 2008
Peaches, Paredes de Coura, Praia Fluvial do Tabuão, 31 de Julho de 2009
Nine Inch Nails, Paredes de Coura, 31 de Julho de 2009

TEATRO
Madame, TNSJ, Porto, 23 de Março de 2000
Castro, TNSJ, Porto, 7 de Março de 2003
Um Hamlet a Mais, Teatro Rivoli, Porto, 24 de Julho 2003
Gretchen, TeCA, Porto, 21 de Novembro de 2003
Ensaio Sobre a Cegueira, TNSJ, Porto, 6 de Maio de 2004
UBUs, TNSJ, Porto, 16 de Setembro de 2005
Cabelo Branco é Saudade, TNSJ, Porto, 8 de Julho de 2005
O Tio Vânia, TNSJ, Porto, 10 de Novembro de 2005
D. João, de Moliére, TNSJ, Porto, 16 de Fevereiro de 2006
O Saque, TNSJ, Porto, 14 de Novembro de 2006
Quarto Interior, Circulando, TeCA, Porto, 11 de Maio de 2006
Turismo Infinito, TNSJ, Porto, 7 de Dezembro de 2007
O Mercador de Veneza, TNSJ, Porto, 7 de Novembro de 2008
Platónov, TNSJ, Porto, 17 de Julho de 2008

DANÇA
Jump-up-and-kiss-me (Olga Roriz), TeCA, Porto, 17 de Janeiro de 2004
...

Sunday, January 10, 2010

Friday, December 04, 2009

Tuesday, November 03, 2009

Totalmente Demais



Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n'roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

(Caetano Veloso)

Monday, October 26, 2009

Wednesday, September 02, 2009

Nun Goldin



Un gusto a miel
sabe más dulce que el vino

Sueño con tu primer beso y entonces
siento en mis labios otra vez
un gusto a miel
Sabe mas dulce que el vino

Volveré, si, volveré
volveré por la miel y por ti

Tuyo fue el beso que despertó mi corazon
dura aun, por más que estemos apartados
un gusto a miel
sabe mas dulce que el vino

Volveré, si, volveré
volveré (el volverá)
por la miel (por la miel)
y por ti.

(The Beatles)

Tuesday, August 04, 2009

Do You Remember?

Say to her
Can you remember
The first time we met
Don't you remember the first caress

Waiting there
Standing alone
On the corner of the night
Can you remember the first time

But if you wait,
I will open to you, I will be with you
And if you wait
I will cross the ocean
I will be with you soon

Say to her
Can you remember
The night that you left
Scanning the crowd
Out in the square

But if you wait
I will take your hand
And you'll understand
And if you wait,
I will be with you soon,
I'll cross the ocean blue

Do you remember, do you remember

And if you wait,
I will come the night
And I'll be by your side
And if you wait
I will be with you
I will cross the ocean
Tell me do you remember,
Tell me do you remember
If you don't remember,
You will remember soon

(The Horrors)

Tuesday, July 07, 2009

Destino



(Salvador Dali and Disney artist John Hench)

Tuesday, June 30, 2009

O Let me Weep, For Ever Weep



O, let me forever weep:
My eyes no more shall welcome sleep.
I'll hide me from the sight of day,
And sigh my soul away.
He's gone, his loss deplore,
And I shall never see him more.

(Henry Purcell)

Monday, June 29, 2009

A Aventura das Saudades

O que é que ela estará a fazer neste momento? Estará o mesmo calor? Será o mesmo dia? Como é que correram os exames? Como é que está a correr O Independente? Porque é que estas coisas me fazem falta? Quantas vezes fazemos esta pergunta? As minhas filhas estão contentes? E os meus pais? Como estará o meu novo sobrinho? E o velho?

É bom saber que é o mesmo céu, que esta lua brilha em Portugal, que as marcas de whisky e as séries americanas que dão na televisão são iguais. O resto é que é pior. Raio de vida. Porque é que as partidas são sempre tão preocupantes?

O tempo que passamos longe das pessoas de quem gostamos é interminável desde o dia em que nascemos. O mundo havia de ser mais pequeno. Só devia haver um país, um liceu, uma empresa, uma rua na única cidade que houvesse. Portugal é enorme. É grande de mais. Do mundo nem se fala.

Contam-se os minutos. Contam-se os quilómetros. O mundo está mal organizado. Os desconhecidos abundam. Telefonam. Aparecem. Os motoristas de táxi ocupam uma larga parte das nossas vidas. Os recepcionistas. As pessoas que nos perguntam as horas. Estupidamente, em nome da vida, ou de uma ideia de vida, perdemos o tempo que temos. Há pessoas com quem queremos estar, que querem estar connosco. Não são estas. O meu sobrinho nasceu no dia 10. Porque é que ele não pôde nascer aqui ao pé de mim?

Hoje em dia, para estarmos com as pessoas de quem gostamos, temos de trabalhar com elas, formar partidos políticos com elas, casar com elas, ter filhos delas, fazer curtas-metragens com elas. Há anos que não tenho um amigo com quem não trabalhe. A partir de certa idade, deixa-se de se ter o luxo de ter amigos só por amizade. A Luísa é um luxo. E não posso ser amigo de um canalizador porquê? Porque é que a vida é tão foleira, tão como é que hei-de dizer... profissionalizada?

O coração português vive mal. Toda a gente faz falta. A saudade é geral. É um fenómeno de massas. Toda a gente faz falta a toda a gente. Olhe à sua volta. Há uma probabilidade de 90 por cento de estar com a pessoa errada. É um genocídio sentimental. Assistimos impassivos, de mala na mão e caneta na boca, ao massacre. Só que não podemos protestar.

Aprendemos desde pequenos que as saudades são coisas boas. Vem nos livros. Conhecemos os poemas de cor. Se a alma dói, dizem-nos que é sinal que se tem qualquer coisas no peito com que doer. Se nos lembramos sem nos querermos lembrar de uma mão que não podemos agarrar, a deixar cair um cigarro, dum cais, dum riso, dizem-nos que isso é bom, que é uma prova de amor. É como dizer que deitar sangue da cabeça quando se bate com a cabeça no chão é bom, porque é sinal de que se está vivo.

A ausência, estão sempre a ensinar-nos, é quase melhor que a presença. A saudade embeleza os sentimentos. A memória melhora. As lágrimas lavam a vista. A saudade dói, mas é doce. É o que nos dizem.

Balelas! Podemos protestar, sim senhor! A saudade não é maravilha nenhuma: é apenas o sinal de que há qualquer coisa que não está bem. Há alguém que não está onde devia estar. O país é errado. A pessoa com quem jantamos é um engano. Saímos à rua e somos rodeados por sobrinhos de outras pessoas. Apanhamos um autocarro cheio de raparigas e nenhuma delas é seguramente a rapariga em que estamos a pensar. Chove. Anda tudo trocado. Onde estão os meus amigos? E os seus? Passamos a vida a apanhar aviões mentais uns para os outros. Caímos no oceano. Morremos de saudades. Isto não pode estar certo. Se isto estiver certo, nós não estamos bons da cabeça.

Os Portugueses gerem a saudade como um tesouro. Fazem-na render. Gostarão de sofrer? Claro que gostam. Se estão a penar por saudades de alguém vão buscar fotografias, reler cartas, ouvir discos antigos. Passa-lhes pela cabeça ir ter com essa pessoa? Não. Matar uma saudade é quase um crime. Os Portugueses produzem saudades como os coelhos produzem coelhinhos. Exportam-nas e importam-nas. As saudades são as especiarias finas do comércio sentimental português. Os Portugueses espalham-se pelo mundo como quem espalha a confusão. Descobrem, emigram, retornam e tornam a emigrar. Deixam pessoas onde não as deviam deixar. Está mal. A maior parte das saudades podia-se evitar.

A reacção intelectual a este estranho estado de coisas é divinizar a saudade. Há religiões, filosofias e políticas baseadas nela, construídas por grandes corações e grandes cabeças. Quando tinha 18 anos achava graça. Agora já não acho graça nenhuma. A saudade é uma extravagância. É amor que se gasta sem proveito. Ninguém aproveita - quem é que aproveita tantas lágrimas? É como acender cigarros com notas de conto. Só que não se acende cigarro nenhum. Como é que correu a oral? Como é que está o meu sobrinho novo? E o velho? Ó Diogo, pequenino do remoinho rufia, a saudade é sem-razão. Não tem interesse nenhum, nenhum, nenhum.

Não nos podemos habituar à solidão. É uma doença. Não nos devemos viciar na tristeza. Os Portugueses encaram a felicidade com estranheza. É uma interrupção. O programa - de ruinosas rotinas, desilusões e maçadas - segue dentro de momentos. Regressa-se à tristeza como quem regressa à normalidade. Isso faz com que se aceitem situações inaceitáveis. Quando enfrentamos misérias, achamo-las iguais à verdade. Praticamente ninguém acredita na felicidade. Desconfiam dela. Está mal!

Se calhar as pessoas que gostam umas das outras deviam viver nos mesmo prédios. Podia montar-se um sistema de trocas. Não há razão para viver tão separadamente. Havia a célula do Funchal, a célula de Alcobaça, et caetera. A distância é uma asneira romântica. Quem nos dera desconhecer todos os desconhecidos que nos aparecem pela frente. O tempo é uma coisa gasta. Metade do que dizemos não se ouve. O amor, que deveria ser principal e governar tudo o que fazemos, é uma distracção. A saudade não o substitui. Nós os Portugueses temos de perder a nossa maior mania. É a mania que é a distância, no tempo e no espaço, que dá valor aos sentimentos. É óbvio. É mentira. A saudade é só uma coisa que a gente arranjou para se consolar.

Os Portugueses deviam abolir a saudade. A saudade não é um estado acabado. É uma coisa que se resolve. Apanha-se um comboio, um avião, um dromedário que seja. Atiram-se os braços para a frente, agarra-se a pessoa de que se precisa e pronto. Está entregue. O coração é um objecto só. Está feito para ter e fazer companhia. Senão não funciona. Definha. Amarga. Desacredita-se.

A saudade é um disparate, um estado de excepção, uma coisa passageira que se tem de curar. É uma anemia. É um parafuso a menos. É falta de vitaminas. Os Portugueses não deviam encoraja-la. Havia de ser proibido - ou pelo menos muito difícil - viajar. É insuportável ter filhos, amigos, sobrinhos e não os ter. É inadmissível ter olhos e não os poder ver. É um erro. Somos uns panhonhas.

Não quero mandar recados nenhuns, palavras nenhumas. Nem recebe-las. O telefone é um suplício. As cartas são só recibos de sentimentos. Passamos a vida longe das pessoas com quem queremos viver - e elas longe de nós - em nome de uma coisa qualquer a que chamamos a nossa 'vida'. A vida que se lixe. O que é que ela estará a fazer neste momento?

(Miguel Esteves Cardoso)

Prefácio

Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Chega-se sempre à primeira frase, ao primeiro número da revista, ao primeiro mês de amor. Cada começo é uma mudança e o coração humana vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do início, da inauguração, da primeira linha da página branca, da luz e do barulho das portas a abrir.

Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a actividade de manter.

Em Portugal quase tudo se resume a começos e a encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. À mínima comichão aparece uma 'iniciativa', que depois não tem prosseguimento ou perseverança e cai no esquecimento. Nem damos pela morte.

É por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os criadores. Criadores não nos faltam. Faltam-nos continuadores. Faltam-nos tenentes. Heróis não nos faltam. Faltam-nos guardiões.

É como no amor. A manutenção do amor exige um cuidado maior. Qualquer palerma se apaixona, mas é preciso paciência para fazer perdurar uma paixão. O esforço de fazer continuar no tempo coisas que se julgam boas - sejam amores ou tradições, monumentos ou amizades - é o que distingue os seres humanos. O nascimento e a morte não têm valor - são os fados da animalidade. Procriar é bestial. O que é lindo é educar.

Estou um pouco farto de revolucionários. Sei do que falo porque eu próprio sou revolucionário. Como toda a gente. Mudo quando posso e, apesar dos meus princípios, não suporto a autoridade.

É tão fácil ser rebelde. Fica tão bem ser irreverente. Criar é tão giro. As pessoas adoram um gozão, um malcriado, um aventureiro. É o que eu sou. Estas crónicas provam-no. Mas queria que mostrassem também que não é isso que eu prezo e que não é só isso que eu sou.

Se eu fosse forte, seria um verdadeiro conservador. Mudar é um instinto animal. Conservar, porque vai contra a natureza, é que é humano. Gosto mais de quem desenterra do que quem planta. Gosto mais do arqueólogo do que do arquitecto. Gosto de académicos, de coleccionadores, de bibliotecários, de antologistas, de jardineiros.

Percebo hoje a razão por que Auden disse que qualquer casamento duradoiro é mais apaixonante do que a mais acesa das paixões. Guardar é um trabalho custoso. As coisas têm uma tendência horrível para morrer. Salva-las desse destino é a coisas mais bonita que se pode fazer. Haverá verbo mais bonito do que 'salvaguardar'? É mais fácil uma pessoa bater com a porta, zangar-se e ir embora. O que é difícil é ficar. Isto ensinou-me o amor da minha vida, rapariga de esquerda, a mim, rapaz conservador. É por esta e por outras que eu lhe dedico este livro, que escrevi à sombra dela.

Preservar é defender a alma do ataque da matéria e da animalidade. Deixadas sozinhas, as coisas amarelecem, apodrecem e morrem. Não há nada mais fácil do que esquecer o que já não existe. Começar do zero, ao contrário do que sempre pretenderam todos os revolucionários do mundo, é gratuito. Faz com que não seja preciso estudar, aprender, respeitar, absorver, continuar. Criar é fácil. As obras de arte criam-se como galinhas. O difícil é continuar.

Este livro é uma série de começos contrariados. Tem muita mentira, muito desespero, muita invenção. Mas tem também uma vontade. A vontade que tem é de cegar perante as luzes da nossa idade - o elogio do eu e da sua expressão - para reaver os sons e os cheiros das coisas que duram. O amor, a Pátria, a amizade, o sangue, o pão. É nestas coisas que acredito. Isto é mesmo verdade.

Não estou a brincar. Estou arrependido. A minha função não é criar - é presenciar. Não é tanto ser esperto, como despertar. Fico feliz, não quando invento, mas quando descubro. A minha missão não é achar, no sentido de quem opina. É achar no sentido de quem encontra. Não é abrir nem fechar - é tentar ver e querer revelar. É assim que a honra do jornalismo é mais nobre e antiga do que hoje é moda pensar.

Sou conservador não por natureza, mas por convicção. Infelizmente, há uma diferença. Quem escreve tem a obrigação de achar uma verdade. Nesse aspecto, algumas destas crónicas - sem dúvida as menos divertidas - saíram bem. Não foi sorte nem feitiço nem jeito. Foi um trabalho que eu tive. Foi qualquer coisa - por muito mesquinha e muito enganada - que eu continuei e que hoje me orgulho de continuar.

(Miguel Esteves Cardoso)

Wednesday, June 17, 2009

Overture

1. Put your itunes/ ipod/ mp3 player on shuffle.
2. For each question, press the next button to get your answer.
3. You must write that song name down no matter how silly it sounds!


IF SOMEONE SAYS “IS THIS OKAY” YOU SAY?
Boys Don’t Cry - The Cure (1 Peel Session)

WHAT WOULD BEST DESCRIBE YOUR PERSONALITY?
No Fronts - Dog Eat Dog (All Boro Kings)

WHAT DO YOU LIKE IN A GUY/GIRL?
Hey Mama - Black Eyed Peas (Elephunk)

WHAT IS YOUR LIFE’S PURPOSE?
A Fool Such As I - Elvis Presley (50 Greatest Hits)

WHAT IS YOUR MOTTO?
Flume - Bon Iver (The MySpace Transmissions)

WHAT DO YOUR FRIENDS THINK OF YOU?
Não Posso - Camané (Esta Coisa Da Alma)

WHAT DO YOU THINK ABOUT OFTEN?
Laura - Norberto Lobo (Mudar De Bina)

WHAT IS 2+2?
Life On Earth - The Divine Comedy (Fin de Siècle)


WHAT DO YOU THINK OF YOUR BEST FRIEND?
Rotating Bar - Johnny Depp (Fear And Loathing In Las Vegas)

WHAT DO YOU THINK OF THE PERSON YOU LIKE?
Superóme - Vozes Da Rádio (O Som Maravilha Dos Senhores)


WHAT IS YOUR LIFE STORY?
Puttin On The Ritz - Rufus Wainwright (Judy Garland Tribute)

WHAT DO YOU WANT TO BE WHEN YOU GROW UP?
Full Tense - Clint Mansell; Kronos Quartet (Requiem For A Dream)

WHAT DO YOU THINK WHEN YOU SEE THE PERSON YOU LIKE?
Hooked on a Feeling - Blue Swede (Reservoir Dogs)


WHAT DO YOUR PARENTS THINK OF YOU?
Blow Job - Adriano Canzian (Pornography)


WHAT WILL YOU DANCE TO AT YOUR WEDDING?
Noches En Vela (Part 1) - Nitin Sawhney (Philtre)

WHAT WILL THEY PLAY AT YOUR FUNERAL?
Ontem Comecei - Mão Morta (Müller No Hotel Hessischer Hof)


WHAT IS YOUR HOBBY/INTEREST?
S’perança - Vadú (Ayan)

WHAT DO YOU THINK OF YOUR FRIENDS?
Double - Vetiver (To Find Me Gone)

WHAT’S THE WORST THING THAT COULD HAPPEN?
Coral - B2C (B2C)

HOW WILL YOU DIE?
To Your Love - Fiona Apple (When The Pawn...)

WHAT IS THE ONE THING YOU REGRET?
Danse infernale du roi Kastchei - Peter Gmür (The Firebird - 1919)

WHAT MAKES YOU LAUGH?
As - George Michael feat Mary J Blige (Ladies & Gentleman)

WHAT MAKES YOU CRY?
La Goutte D’Or - St. Germain (Tourist)

WILL YOU EVER GET MARRIED?
Step Right Up - Tom Waits (Used Songs 1973-1980)

WHAT SCARES YOU THE MOST?
I Don’t Need A Man - Pussycat Dolls (PCD)


DOES ANYONE LIKE YOU?
Overload - Alfie Zappacosta (Ultimate Dirty Dancing)


IF YOU COULD GO BACK IN TIME, WHAT WOULD YOU CHANGE?
I’m Real - Jennifer Lopez feat Ja Rule (J.Lo)


WHAT HURTS RIGHT NOW?
Lon Chaney - Vetiver (Thing Of The Past)

WHAT WILL YOU POST THIS AS?
Overture - Danny Elfman (The Nightmare Before Christmas)


(Obrigada, Claudini. As armas e os Barões assinalados.)

Wednesday, June 03, 2009

Wednesday, May 27, 2009

P.S.

Em geral, as miúdas optam por fazer o estilo difícil, mesmo que por pouco tempo e sem muita vontade. É de praxe, e ninguém leva isso a sério. Há que respeitar o recato e ir até onde se pode, sem nos chatearmos com a hipocrisia; justifica-se pela necessidade delas de não parecer fáceis demais. Aquele atrevimento de Delfina, feito com tanta naturalidade, mostrou uma mulher doutro tipo. Ou que conhece bem a actuação das putas, ou que faz o que lhe apetece e se está nas tintas para o que possa parecer. Uma pessoa segura de si, desinibida, verdadeira. Só me deu adrenalina, e nenhum trauma. Uma puta e uma mulher apaixonada! Não será esse o sonho mais excitante? Amar e ser amado por uma mulher sem inibições?
Todos os homens sonham com isso, e muito poucos se atrevem.
Ou não têm estômago, ou são uns hipócritas.
Quanto a mim, pensava que estava interessado num relacionamento normal. Mas o que é um relacionamento normal? É quando a mulher é 'normal', como as outras? Que interesse é que isso pode ter?
Tenho a certeza de que a Delfina é minha desde aquele primeiro momento. Pode não ter sido antes, pode não vir a ser depois.
Mas, enquanto for, é uma pertença absoluta.
O melhor é voltar.


Delfina sabe fazer bem e não mede o que diz.
Mas di-lo com uma inocência desarmante.
Não tem inibições, mas junta à putaria o amor, sincero e verdadeiro - o que lhe confere um poder quase absoluto sobre mim, que aprecio uma e venero o outro, ensandecido de tesão e paixão.
Nunca, em toda a minha vida, poderia sonhar que um tal momento existisse, estivesse ao alcance da experiência cognitiva. Ao descobrir esta dimensão, ao vivê-la na carne e no ego, percebo que o objectivo da vida é viver absolutamente. Delfina dá-me o prazer e mostra-me o amor.
Talvez devesse sentir ciúmes... Mas não me sinto enganado, nem despossuído. Não há espaço para mais nenhum sentimento, quando o amor domina todos eles. O que vejo é que ela partilha as suas maiores intimidades comigo. Dá-me tudo o que tem na cabeça, ao mesmo tempo que dá todo o corpo. As pessoas pensam muita coisas que não dizem: mas ela não, quer dar-se inteiramente, em todos os momentos que estamos juntos.
Depois de ter uma mulher como Delfina, não há nenhuma que nos engane.


Quando se caça em todos os territórios, encontram-se paisagens desconhecidas e animais raros.


As mulheres que gostam de sexo são mais complexas.
As que não gostam fazem-no por dever, ou conveniência, e às vezes até se esforçam por tirar o melhor partido da situação; são meigas e cheias de boa vontade, mas limitam-se a reagir aos estímulos que recebem e a fazer o que acham que agrada. São também constantes nos afecto e lineares no percurso do relacionamento.
Mas outras, as que gostam, é outra conversa. O modo como multiplicam o prazer que recebem e a intensidade com que vivem e se envolvem, compensam largamente as chatices e o inevitável abandono que nos espera. A satisfação nunca satisfeita, que faz delas tão preenchedoras, é o reflexo da insatisfação da vida.
Pararam por acaso ao nosso lado, e aqui ficam enquanto esperam encontrar algo, nem elas sabem bem o quê; assim que descobrem tudo o que temos para a troca seguem em frente, à procura de outras experiências. Nem olham para trás, deixando-nos como se fôssemos um objecto gasto, sem utilidade.
Isto um dia vai acabar, e vai acabar mal para mim. Mas seria uma estupidez recusar o presente e pensar no futuro. Enquanto durar, é uma maravilha.


Arreitada donzela em fofo leito
deixando erguer a virginal camisa,
sobre as roliças coxas se divisa
entre as sombras subtis pachocho estreito.

De louro pêlo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito.

A voraz porra, as guelras encrespando,
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando.

Como é inda boçal, perde os sentidos;
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.

(Bocage)


Tem vergonha de abrir a boca, esta mulher que tão bem a sabe usar. Atira-se para a frente com ousadia, sem nada que a detenha, mas detém-se na barreira das palavras.
É assim, a maravilha das coisas.


Tempos perdidos - melhor dito, encontrados - a vê-la, a tocar-lhe, a contornar topograficamente todas as lisuras, pregas e obras de arte, o vibrar dos cílios e dos cabelos, o veludo da penugem, a seda do interior das coxas e o halo da pele.
Queria conhece-la pelo verso e pelo reverso, no tocável e no intangível.
Penetrá-la em baixo, em cima e atrás, e onde não há penetração possível - até chegar ao âmago, ao coração e ao cérebro, a todas as vísceras. Nadar nas secreções, sorver os fluidos, até a minha pele ser a pele dela, o meu coração bater com o dela, eu ser ela.

É assim o amor, um desejo insano, nojento e sublime de fusão total, identificação absoluta.

(José Couto Nogueira)

Wednesday, May 20, 2009

Friday, May 15, 2009

Thursday, April 16, 2009

Marasmo | s. m.

mar - asmo

s. m.
1. Mar com falta de ar-masculino, no singular.

Tuesday, March 31, 2009

Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano



(IX)

no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno

e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço

e no país no país que engraçado no país
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora aí está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)

diz que grandeza de alma. Honestos porque.
Calafetagem por motivo de obras.
É relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no país onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato

(Mário Cesariny)

Monday, March 30, 2009

Os Amantes

Não se pode dizer que vivam juntos. Muitas vezes duas pessoas gostam muito uma da outra e não conseguem viver juntas. É o caso deles. Casaram-se e depois separaram-se. Como toda a gente. Mas, passados meses de dor e recíprocas violências, encontraram uma saída que a ambos pareceu inteligente. A ideia foi ela que a teve. Passarem os dias de trabalho cada um em sua casa e os dias feriados juntos na casa de um, ou do outro. Há coisas animais, emoções incontroláveis e, sobretudo, o constante desgaste dos dias que destroem a alegria - o puro prazer de se estar com alguém, o verdadeiro interesse pela vida do outro - enquanto o sexo se transforma numa rotina mais ou menos enfadonha. Ele chama-se João, ela Maria.

Jantam à sexta-feira num restaurante chinês e decidem a casa para onde vão. Um pequeno saco basta. Na segunda-feira tomam o pequeno-almoço juntos e depois despedem-se, cada um partindo para seu lado, com o coração levemente aflito. Durante os dias em que não estão juntos, estão proibidos de se falarem ao telefone ou comunicarem de qualquer outra forma. Salvo uma emergência imprevisível - um incêndio na cozinha, a morte de um familiar, uma súbita fragilidade da alma.

Conheceram-se no liceu. Casaram-se tinham ambos vinte e quatro anos. Agora vão fazer trinta e um. É muito forte o amor que os une. Um amor só deles, que as pessoas não compreendem e por isso criticam. O amor precisa de ser protegido, abrigado, alimentado com todo o cuidado. O quotidiano é o pior inimigo. Corrói o imprescindível respeito pelo outro, por quem o outro é. Consome a distância que é preciso manter para que o outro possa ser quem é. Começa a asfixia.

É um engano grande julgar que não se pode viver com esta pessoa mas que se poderá viver com outra, porque na maioria dos casos é a própria vida que nos abandona e afasta. No caso deles há um facto relevante. Nenhum deles quer ter filhos, fundar, como se diz, uma família. Pelo menos por enquanto. Ambos conhecem demasiado bem as famílias.
Trazer ao mundo uma vida não só é uma responsabilidade de que não se conhecem os limites, como uma inconsciência para a qual nunca se está suficientemente preparado. Pelo menos por agora.

Ele tem uma casa junto ao mar, ela um apartamento no centro da cidade. Ele é economista, ela editora num jornal diário. Quando se encontram riem dos acidentes da semana, do ridículo comportamento dos humanos, dos problemas insolúveis. O trágico também pode ser visto de modo a merecer uma gargalhada.
Falam dos livros que lêem, de um programa passado na televisão ou na rádio, do concerto para o qual é preciso comprar bilhetes pela internet, de pequenas coisas sem verdadeira importância. Não se criam aqueles deprimentes silêncios quando já não se tem nada a dizer um ao outro e, dentro de um carro, cada um olha em frente com receio de olhar para o lado e deparar com um desconhecido.

Os pais não percebem, os amigos não percebem, ninguém percebe. Toda a gente conspira para que aquela frágil e preciosa relação termine. Quase todos têm pavor de ficar sozinhos, de morrer sozinhos. O que os agarra é o medo.
Por isso condenam-se aos piores compromissos. Eles, pelo contrário, sabem não só que há em qualquer humano uma solidão que nunca pode ser superada, como que só ela abre um espaço onde o coração pode viver livre. Os corações também precisam de respirar.

Todos os anos, em meses variáveis, fazem uma viagem juntos. No ano passado foram a Viena, este ano pensam ir à Finlândia. Juntos decidem todos os pormenores, embora cada viagem deva ser uma aventura da qual não se conhece o desfecho. Juntos vêem-se coisas que de outro modo não se veriam, porque cada um aponta ao outro o que, a sós, lhe poderia passar despercebido. Aprende-se mais porque ao falar as palavras chamam pelas coisas tornando-as mais nítidas, mais presentes. Num casamento comum há sempre um que em determinado momento precisa de se calar. Ali não. Antes de adormecer, adoram relembrar o que viram, sentiram, descobriram. E o sexo vem e chega, sempre poderoso, transportando-os para íngremes paisagens, súbitos abismos. Como dois desconhecidos que se desejam loucamente dentro de um comboio e não se recusam ao mais premente prazer.

Em Viena, o que mais a impressionou foi uma exposição das obras do último ano de vida de Picasso, uma gigantesca e heróica luta contra a morte. Ele, o que mais apreciou foi visitar a casa de Freud, um lugar onde se conspirou contra a sufocante normalidade dos costumes. Nenhum deles sabe até quando aquela relação poderá durar. Pode não se conseguir continuar. Pode acontecer uma paixão imprevisível. O amor é um trabalho pelo qual se tem de lutar e o que já se conseguiu dissipa-se no passado. Eles estão preparados para o fim. O que importa é acreditar no que ainda há-de vir, no indomável. Se assim não fosse não valeria a pena. Faz parte do amor não saber quando pode acabar. Sempre aquela pequena dor que acompanha o verdadeiro amor.

(Pedro Paixão)

Monday, March 23, 2009

Monday, March 09, 2009

Closer

Que me enterres os caninos felinos na carne e ter
na pele rasgada garras rapaces
dorso de fera: imagino-te gume
em posição de ataque em câmara tão lenta
imagino-te esbugalhando olhos verdes
selvática frenética meu animal

(Clem)

Sunday, February 01, 2009

Saturday, January 17, 2009

Big Time Sensuality

I don't know my future after this weekend
And I don't want to.

(Björk)

Monday, December 22, 2008

It will kill me.

A kiss could've killed me
If it were not for the rain
A kiss could've killed me
Baby if it were not for the rain

And I had a feeling it was coming on
And I felt it coming
For so long
If I'm to be the fool
Then so it be

This fool can die now
With a heart that's soaked
How
How had it coming
For so long

And darling take my hand
And lead me through the door
Let's kidnap each other
And start singing our song

My heart is charged now
Oh, it's dancing in my chest
And I fly when I walk now
From the spell in that kiss

Cause I ...

It could've
It could've killed me
It could've killed me
If it were not for the rain

Oh darling let me dream
Cause somewhere inside me
I have been waiting
So patiently
For you

So don't you break
Don't break my dream
Don't break my dream

Let the rain exalt us
As the night draws in
Winds howl around us
As we begin
What a way to start a fire
Broken with the break of day

A kiss could have killed me
If it were not for rain

And I have a feeling it's coming on
And I felt it coming on
for so long

And oh it could've
It could've killed me
It could've killed me
If it were not for the rain

(Scout Niblett)

Wednesday, December 10, 2008

Então

um homem geme porque
o corpo da mulher que recusa
se enrosca e
a recusa é doce e um homem geme
enquanto a mulher se ausenta
estica o corpo até às nuvens
enfia os dedos no ânus das nuvens e
está frio na ponta dos seus dedos então
a mulher cose as nuvens umas às outras
monta um carrossel para se aquecer
e disse tomai os meus vestidos enfiai-os que não os quero mais
e empinou o corpo
finalmente a mulher remata o homem enrosca-se então

(Bénédicte Houart)

Monday, November 24, 2008

Dulcineia


se do fundo da garganta aos dentes a areia do teu nome,
se riscasse com a abrasadura, se
em cima e em baixo mexido às escuras,
o forno com a mão a ver se ela podia
que uma púrpura em flor fosse até ao coração,
unhas e tudo,
que estremecesse, não por dito mas sabido
contra ti, e por artes
antigas trazer o ar, fazer uma
iluminação:
mudar o mundo para que o nome coubesse,
vivaz, tocado, fértil,
houvesse um dom inseparável, música, verbo:
se eu pudesse, se a terra
se atrasasse,
se pudesse em amarga língua portuguesa com o teu nome em qualquer
parte,
para eu mesmo riscar contra ti,
raiar contra ti,
sob
serapilheiras de sangue

(Herberto Helder)

Friday, October 10, 2008

Nin, de Anaïs



Perguntei a Eduardo:
- Será este desejo de orgias, uma daquelas experiências que se tem de viver? E uma vez vivida, podemos ultrapassa-la, sem regressarmos aos mesmos desejos?
- Não - respondeu ele - A vida dos instintos é composta de camadas. A primeira camada conduz à segunda, a segunda à terceira, e assim por diante. Por fim, conduz a prazeres anormais.


O amor é o nosso ego.


A raiva envenena-me. Eu amo, eu amo, eu amo.


A verdade é que esta é a única maneira de que posso viver: em duas direcções. preciso de duas vidas. Eu sou dois seres. Quando volto para Hugo ao entardecer, para a paz e calor de casa, volto com uma profunda satisfação, como se esta fosse a única condição para mim. Trago para casa, para Hugo, uma mulher inteira, liberta de todos os "possuídos" ardores, curada do veneno da inquietação e curiosidade que costumava ameaçar o nosso casamento, curada através da acção. O nosso amor vive, porque eu vivo. Eu sustento-o e alimento-o. Sou-lhe leal, à minha maneira, que não pode ser a maneira dele. Se alguma vez ele ler estas linhas, tem de acreditar em mim. Estou a escrever calmamente, com lucidez, enquanto espero que ele venha para casa, como se espera pelo amante eleito, o amante eterno.


As melhores mentiras são as meias verdades. 
Eu conto-lhe meias verdades.


Sagrada plenitude. Saio para a rua atordoada na noite doce de Primavera e penso, agora não me importaria de morrer.


Sim, Anaïs, estava a pensar em como podia trair-te, mas não consigo. Quero-te. Quero despir-te, vulgarizar-te um bocadinho - ah, não sei o que estou a dizer. Estou um bocado bêbado porque não estás aqui. Gostava de poder estalar os dedos e voilà Anaïs! Quero ser o teu dono, usar-te, quero foder-te, quero ensinar-te coisas. Não, não te aprecio - Deus me perdoe! Se calhar até quero humilhar-te um pouco - porquê, porquê? Por que é que não me ponho de joelhos e apenas te venero? Não posso, amo-te divertidamente. Gostas disso? E querida Anaïs, sou tantas coisas. Só vês as coisas boas agora - ou pelo menos levas-me a pensar isso. Quero-te por um dia inteiro pelo menos. Quero ir a sítios contigo - possuir-te. Tu não sabes como sou insaciável. Ou covarde. E tão egoísta!
Tenho sido bem comportado contigo. Mas aviso-te, não sou nenhum santo. Penso principalmente que estou um bocado bêbado. Amo-te. Vou agora para a cama - é tão doloroso ficar acordado. Sou insaciável. Hei-de pedir-te que faças o impossível. O que é, não sei. Tu me dirás provavelmente. Tu és mais rápida do que eu. Amo o teu sexo, Anaïs - ele põe-me doido. E a maneira como dizes o meu nome! Meu Deus, é irreal. Escuta, estou muito bêbado. Estou magoado por estar aqui sozinho. Preciso de ti. Posso dizer-te tudo? Posso, não posso? Vem depressa então e enrosca-te a mim. Faz amor comigo. Enrola as tuas pernas à minha volta. Aquece-me.


Henry e eu estamos à espera do comboio numa plataforma alta. A chuva lavou as árvores. A terra liberta essências como uma mulher que o homem arou e semeou. Os nossos corpos aproximam-se.


A verdade, Anaïs, é que eu considero a bondade como um dado adquirido. Espero que todos sejam bons. É o mal que me fascina.


Hugo regressa, e a mim parece-me um filho pequeno. Sinto-me velha, gasta mas terna e feliz. Estou a descansar na cama de carne de uma enorme fadiga. Tudo o que trago de Henry é imenso.
Se adormeço, é porque estou sobrecarregada. Adormeço porque uma hora com Henry contém cinco anos da minha vida, e uma frase, uma carícia responde às expectativas de cem noites. Quando o ouço rir, digo:
- Ouvi Rabelais. - E engulo o seu riso com o pão e o vinho. Em vez de praguejar, ele está a germinar, cobrindo todos os espaços que perdeu nas suas caminhadas com June. Ele está a descansar do tormento, da virulência, do drama, da loucura. E diz num tom que eu nunca antes ouvi dele, como que para ficar gravado:
- Amo-te.
Adormeço nos seus braços, e esquecemo-nos de acabar a segunda fusão de nós mesmos. Ele adormece com os seus dedos mergulhados no mel. Para adormecer desta maneira eu devo ter encontrado o fim da dor.
Percorro as ruas com um passo firme. Só há duas mulheres no mundo: June e eu.


Eu dou-lhe uma sensação de absoluta intimidade, como se fosse sua esposa.


- Não quero que June venha torturar-me e magoar-te, Anaïs. Amo-te. Não quero perder-te. Mal saíste no outro dia comecei a sentir a tua falta. "Sentir a falta" não é a expressão certa; a ansiar por ti. Quero estar casado contigo. Tu és preciosa, rara. Vejo-te por inteiro agora. Vejo o rosto da criança, a dançarina, a mulher sensual. Tu fizeste-me feliz. Terrivelmente feliz.
Vimo-nos juntos com desespero e delírio. Estou num tal estado de êxtase que choro. Quero ser soldada a ele.


Quero estar onde quer que tu estejas. Deitada ao teu lado mesmo se estás a dormir. Henry, beija as minhas pestanas, põe os teus dedos nas minhas pálpebras. Morde a minha orelha. Empurra o meu cabelo para trás. Aprendi a desabotoar-te com tanta rapidez. Todo, na minha boca, chupando. Os teus dedos. O ardor. O delírio. Os nossos gritos de satisfação. Um para cada impacto do teu corpo contra o meu. Cada golpe uma pontada de prazer. Penetrando em espiral. O centro atingido. O ventre chupa, para trás e para a frente, aberto, fechado. Os lábios estalando, lábios de serpente estalando. Ah, a ruptura - uma célula de sangue explodindo de prazer. Dissolução.


Gostaria de cobrir as últimas páginas com os prazeres de ontem. Carradas de beijos de Henry. As investidas da sua carne dentro da minha, enquanto eu arqueava o corpo para melhor se colar ao dele. Se tivesse de escolher hoje entre June e eu, diz-me ele, desistira de June. Conseguia imaginar-nos casados e gozando a vida, juntos.
- Não - digo eu, em parte a brincar, em parte a sério. - June é única. Estou a tornar-te maior e mais forte para June. Uma meia verdade. Não há escolha.
- És demasiado modesta, Anaïs. Tu ainda não percebeste o que me deste. June é uma mulher que pode ser apagada por outra mulher. O que June me dá eu posso esquecer com outras mulheres. Mas tu és uma coisa à parte. Podia ter mil mulheres depois de ti e elas não podiam apagar-te.
Eu ouço-o, está fascinado, e por isso exagera, mas é tão bom. Sim, eu sei, por um momento, da raridade de June e da minha. A balança pende para o meu lado por enquanto. Olho para a minha própria imagem nos olhos de Henry, e o que é que vejo? A menina dos diários, contando histórias aos irmãos, chorando muito sem razão, escrevendo poesia - a mulher com que se pode falar.


Só tenho três desejos agora, comer, dormir, e foder. Os cabarets excitam-me. Apetece-me ouvir música rouca, ver caras, roçar-me em corpos, beber um ardente Benedictine. Mulheres belas e homens atraentes despertam ardentes desejos em mim. Quero dançar. Quero drogas. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas. Nunca olho para caras ingénuas. Quero morder a vida e ser despedaçada por ela. Henry não me dá tudo isto. Eu despertei o seu amor. Que se lixe o seu amor. Ele sabe foder-me como mais ninguém, mas quero mais do que isso. Vou para o Inferno, para o Inferno, para o Inferno. Selvagem, selvagem, selvagem.


- Anaïs - diz Henry - , tu tens o rabo mais bonito.


Na manhã seguinte recebo uma carta enorme dele. Só o facto de a tocar já me afecta. "Quando voltares vou dar-te um banquete literário de sexo - ou seja foder e conversar e conversar e foder. Anaïs, eu vou abrir as tuas entranhas. Deus me perdoe se esta carta alguma vez for aberta por engano. Não consigo evitá-lo. Quero-te. Amo-te. Tu és comida e bebida para mim, és todo o raio da máquina da vida, deitar-me em cima de ti é uma coisa, mas aproximar-me de ti é outra. Sinto-me unido a ti, um só contigo, pertences-me quer isso seja sabido ou não. Cada dia que espero agora é tortura. Estou a contá-los lentamente, dolorosamente. Mas vem o mais depressa que possas. Preciso de ti. Meu Deus, quero ver-te em Louveciennes, ver-te naquela luz dourada da janela, com o teu vestido verde do Nilo e o teu rosto pálido, uma palidez gelada como na noite do recital. Amo-te como tu és. Amo as tuas ancas, a tua palidez dourada, a curva das tuas nádegas, o calor dentro de ti, o sumo que sai de ti. Anaïs, amo-te tanto, tanto! Estou a ficar sem palavras. Estou aqui sentado a escrever-te com uma tremenda erecção. Posso sentir a tua boca macia fechando-se sobre mim, a tua perna apertando-me com força, voltar a ver-te aqui na cozinha levantando o vestido e sentando-te em cima de mim e a cadeira a andar pelo chão da cozinha, fazendo tamp, tamp."


Hugo está a ler. Inclino-me sobre ele e derramo amor, um amor que é fortemente penitente. Hugo ofega.


Eu odiava-o porque o amava como nunca amara ninguém.


- O que um homem quer (o que um homem quer!) é acreditar que uma mulher possa amá-lo tanto que nenhum outro homem possa interessar-lhe. Eu sei que isso é impossível. Sei que cada alegria tem a sua própria tragédia.
(...)
- Ouve - disse eu desastradamente -, o que o homem quer é aquilo que eu te tenho dado até hoje, com um absolutismo que tu nunca poderias imaginar.

(Anaïs Nin)

Tuesday, September 09, 2008

Kept under my skin.

Come on skinny love just last the year
Pour a little salt we were never here
My, my, my, my, my, my, my, my
Staring at the sink of blood and crushed veneer

I tell my love to wreck it all
Cut out all the ropes and let me fall
My, my, my, my, my, my, my, my
Right in the moment this order's tall

I told you to be patient
I told you to be fine
I told you to be balanced
I told you to be kind
In the morning I'll be with you
But it will be a different "kind"
I'll be holding all the tickets
And you'll be owning all the fines

Come on skinny love what happened here
Suckle on the hope in lite brassiere
My, my, my, my, my, my, my, my
Sullen load is full; so slow on the split

I told you to be patient
I told you to be fine
I told you to be balanced
I told you to be kind
Now all your love is wasted?
Then who the hell was I?
Now I'm breaking at the britches
And at the end of all your lines

Who will love you?
Who will fight?
Who will fall far behind?

(Bon Iver)

Tuesday, September 02, 2008

Friday, August 08, 2008

Friday, June 27, 2008

Wild

O mundo mudou, porque tu és feito de marfim e oiro.
As curvas dos teus lábios refazem a história.

(Oscar Wilde)

Sunday, June 15, 2008

Can't you see what kind of seeds you're sowing?

Why? Why'd you do that?
You shouldn't have done that
If I told you once, I told you three times
You'll get your punishment when you
Show me your crimes

It's not a spell or a curse you put on me
Or the way you smile so tenderly
But how I wish it was your temper you were throwing
Damn you for being so easygoing

I thought that time would tell
My sins would provoke you to raise some hell

Not a chance
Whatever happened to fiery romance
Oh how I wish it was those dishes you were throwing
Damn you for being so easygoing

No, don't give me that line
Don't try to tell me inaction is not a crime
Can't you see what kind of seeds you're sowing?
Damn you for being so easygoing

(Andrew Bird)

Tuesday, April 29, 2008

Corazón Loco

No te puedo comprender
Corazón loco,
No te puedo comprender
Ni ellas tampoco.
Yo no me puedo explicar
Como las puedas amar
Tan tranquilamente.
Yo no puedo comprender
Como se pueden querer dos mujeres a la vez
Y no estar loco

Merezco una explicación
Porque es imposible seguir con las dos.
Aquí va mi explicación
A mí me llaman sin razón
Corazón loco.

Una es el amor sagrado
Compañera de mi vida,
Esposa y madre a la vez.
Y la otra es el amor prohibido
Complemento de mi alma
Y a quien no renunciaré,
Y ahora ya puedes saber
Como se pueden querer dos mujeres a la vez
Y no estar loco,

Aquí va mi explicación
A mí me llaman sin razón
Corazón loco.

Una es el amor sagrado
Compañera de mi vida,
Esposa y madre a la vez.
Y la otra es el amor prohibido
Complemento de mis ansias
Y a quien no renunciaré,
Y ahora ya puedes saber
Como se pueden querer dos mujeres a la vez
Y no estar loco,
Y no estar loco,
Y no estar loco,
Y no estar loco.

(Bebo Y Cigala)

Tuesday, March 11, 2008

How lot the forgot eternal mind each resign'd

How happy is the blameless vestal's lot!
The world forgetting, by the world forgot
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd.

(Alexander Pope)

Monday, March 03, 2008

ON


Eu sou as bandeiras, 2
Eu sou as árvores, muitas
Eu sou os semáforos, vermelhos
Eu sou as cortinas, brancas
Pirosas.
Esvoaço, abano, oscilo
E esvoaço outra vez.
Eu sou a Processadora.

Friday, February 15, 2008

15 de Setembro de 1983

Quel jour sommes-nous
Nous sommes tous les jours
Mon amie
Nous sommes toute la vie
Mon amour
Nous nous aimons et nous vivons
Nous vivons et nous nous aimons
Et nous ne savons pas ce que c'est que la vie
Et nous ne savons pas ce que c'est que le jour
Et nous ne savons pas ce que c'est que l'amour.

(Jacques Prévert)

Thursday, February 14, 2008

Friday, February 08, 2008

Mulher Canibal

E a vagina encosta-se agora à sua boca e lambe e bebe o mel cor de pérola e enfia-lhe dois dedos grossos com o anel de brasão pelo recto acima. Ela urina copiosamente na sua cara e ele gargareja com prazer infantil. Agora ela sorve-lhe o pénis proteico com vigor profissional e enfia-o dentro da sua terceira vagina, na testa. Então, a sua vagina proboscídea começa a sugá-lo até que o corpo de Luís Mendonça está já metade enterrado dentro do ventre da mulher, que quase o engole completamente no momento em que Frasco aparece. Desesperadamente, atira sobre o abominável indígena mas os tiros são absorvidos pela sua pele.

(Manuel João Vieira)

Monday, January 28, 2008

Wednesday, December 05, 2007

Cinco

Hoje as nuvens pareciam nascer da terra.
Quem está bêbada agora sou eu
E com uma vontade enorme de estar contigo
Mas isso tu já sabes
Bem. Demais.
Beijo grande, queridinho.
És o meu todos os dias Há duas semanas atrás
Vou ter de te apagar outra vez.
Estou farta destas brincadeiras adolescentes.
Estava convencida, segura, de que sabias
O que querias
Estava enganada.

Wednesday, October 03, 2007

Samba do Acento

Vamos pôr
os pontos nos is
Eu vou atrás do til
dos teus quadris
que til e tal
cobra no areal
Eu sei que ponho
acento grave em tudo
Mas tu libertas
o acento agudo
Por isso, o til que dás
nas ancas, é capaz
de me pôr a dizer
coisas sem nexo
lua
golo
aliás
gata no banco de trás
num abraço circunflexo

(Manuel Paulo)

Tuesday, October 02, 2007

Noites Bárbaras

"Só espero que continues a ser puta quando te ligar daqui a dez minutos..." 

O sotaque nortenho, amansado pelos anos de faculdade em Lisboa, mas ainda agressivo na essência, conferia àquela frase o condimento necessário para que o momento passasse de inusitado a inesquecível. 

A voz, rouca, de Bárbara, ficou a tilintar na cabeça de Marcos durante os minutos de espera que teimavam em não correr. Assim como uma série de questões à volta da mulher em si. Seria a voz dela naturalmente rouca? Provavelmente a bebida - como ela própria tinha assumido, bebera bastante - teria dado uma ajuda no endurecimento da fala assim como na desfaçatez das palavras. Bárbara. Seria o seu próprio nome, o nome próprio, numa fortuita coincidência, uma declaração de intenções? A ser esse o caso, estava decididamente ansioso pelas suas invasões. "Só espero que continues a ser puta..." Apesar ou além do sorriso provocador, os olhos amendoados não lhe deixaram qualquer réstia de dúvida - ela falava a sério.

Bárbara, Bárbara, Barbarella. Sexy, armada e perigosa. A conversa começara na noite do Porto sobre a noite do Porto, demorara-se um pouco na arte da representação, acabando em Direito Internacional, que ela praticava. Pelo meio, bateram-se numa série de clivagens forçadas. Perderam-se em questões retóricas, semânticas e jogos de palavras: disparates díspares disparados à toa - e nesses momentos as palavras serviam apenas para camuflar um intenso estudo recíproco dos intervinientes no diálogo. Olhos nos olhos. Olhos no sexo. Sexo nos olhos. Bárbara, a Estratega. Trocara-lhe as voltas em menos de nada quando lhe pediu o número de telefone. Com o automatismo de uma actriz que pega numa deixa ensaiada retorquiu de imediato: "Se me deres o teu, terás o meu daqui a uns minutos, quando te ligar. Prefiro assim". Numa questão de segundos ela passara a comandar as operações. Ele insistiu que deveria ser ela a dar-lhe o número, até porque ele pedira primeiro. "Pedi primeiro? Mas serás tu uma criança?!" Ficaram nisto até Marcos perceber que aquilo era o mesmo que regatear com um negociante marroquino - ela simplesmente deixou-o alinhar até o ter onde o queria. Nessa altura, parou. Não brincou mais. E finalmente ele deu-lhe o número, deixando escapar um desabafo entre dentes: "porra. sou mesmo uma puta, quando bebo... aponta aí". Mal lhe saíram as palavras da boca, Marcos sentiu-se algo embaraçado, com medo de ter roçado o brejeiro. Levantou os olhos do chão apenas para constatar que Bárbara, a Guerreira, se limitou a sorrir, cúmplice com o à vontade da sua presa. 

E foi aí que ela soltou a frase que lhe marcaria a memória enquanto existisse: "Só espero que continues a ser puta quando te ligar daqui a dez minutos". Olhos nos olhos. Sexo nos olhos. Pensou em Iggy Pop: "Now I Wanna Be Your Dog". Estavam na porta das traseiras da discoteca, aquela que só quem podia e certamente queria usava, do lado de fora: tinham saído um pouco porque não se conseguiam ouvir lá dentro, e , de qualquer forma, Marcos tinha pedido para lhe arranjarem um táxi, segundos antes de os seus olhos se encontrarem pela primeira vez. Estas coisas aconteciam sempre quando menos se esperava. No final de uma noite recheada de champanhe, morangos e miúdas giríssimas que perdiam toda a piada assim que diziam coisas como "vou para a pista bater chinelo, queres vir?", já a caminho da saída, aparecia-lhe uma ninfa a fazer pouco do seu recém adquirido estatuto de não-tão-jovem-actor-revelação. Regra geral, somava e seguia. Mas houve qualquer coisa nela, não, não qualquer coisa apenas, houve tudo, isso sim, um tudo e todo específico que o deteve. "Fico à espera, disse, ao entrar no táxi. Pediu para seguir para o hotel na Avenida da Boavista, sugerindo ao taxista que não havia pressas: precisava de processar uma série de elementos. Estaria ela na discoteca com um interesse amoroso, um possível namorado, ou apenas com amigas de quem se precisava despedir? Não percebia o porquê de não ter entrado com ele no táxi. Se calhar tinha que levar alguém a casa. Acabara de dar o número a uma perfeita desconhecida e os tais dez minutos já tinham passado faziam outros dez. 

Chegou ao hotel. Meteu a chave na porta do quarto e o telemóvel tocou, número visível mas desconhecido: a rouquidão sensual e dengosa soou do outro lado. "Onde estás? Na Boavista? Qual deles? Diz-me o número do quarto, cinco minutos tou aí." Bárbara, a Implacável. Marcos ligou as colunas do iPod e deixou Iggy cantar aquilo que lhe ía na alma: "so messed up / I want you here / in my room / I want you here / and now we're gonna be face-to-face / and I'll lay down in my favorite place / now I wanna be your dog...". Chamou para o serviço de quartos, pediu champagne e duas flutes. Sentindo-se uma verdadeira puta, feliz na sua pele, disse baixinho, olhando-se no espelho:

"Que as invasões comecem."

(Pacman)